Vaginismo: sentir dor durante a relação sexual não é normal
Sentir dor durante a relação sexual não é normal.
Ainda assim, muitas mulheres passam meses ou até anos fazendo sexo com dor.
Elas podem pensar que precisam se acostumar, que o problema é falta de relaxamento, que “na próxima vez vai ser melhor” ou que talvez exista alguma coisa errada com elas.
Algumas continuam tendo relações mesmo sentindo dor porque têm medo de que o parceiro se canse, de prejudicar o relacionamento ou de parecer “anormal”.
Outras simplesmente nunca aprenderam que sexo não deveria doer.
E é justamente por isso que precisamos falar sobre o assunto.
Dor durante a relação sexual merece atenção. Não precisa ser normalizada, escondida ou simplesmente suportada.

Uma das condições que pode estar relacionada à dor e à dificuldade de penetração é o vaginismo.
É normal sentir dor durante a relação sexual?
Não.
Isso não significa que qualquer desconforto durante uma relação sexual seja necessariamente sinal de uma doença ou de um transtorno.
Uma relação específica pode ser desconfortável por diferentes motivos, como pouca lubrificação, falta de excitação, uma posição que não foi confortável ou alguma circunstância específica daquele momento.
Mas quando a dor é frequente, intensa ou recorrente, ela merece ser investigada.
A questão não é dizer que toda mulher que sente dor tem um problema médico.
É entender que sentir dor durante o sexo não deveria ser tratado como uma característica inevitável da sexualidade feminina.
Você não precisa acreditar que “é assim mesmo”.
Por que tantas mulheres fazem sexo mesmo sentindo dor?
Essa é uma pergunta importante.
Se a relação sexual dói, por que tantas mulheres continuam?
Porque sexo não acontece em um vazio.
A maneira como aprendemos sobre sexualidade, nossos relacionamentos, nossas crenças e as expectativas que recaem sobre as mulheres podem influenciar a forma como lidamos com a dor.
Algumas mulheres continuam porque acreditam que:
precisam satisfazer o parceiro;
dizer que está doendo pode frustrá-lo;
recusar a penetração pode fazer o parceiro perder o interesse;
sexo é uma obrigação dentro de um relacionamento;
precisam “cumprir seu papel” como parceira;
a dor é algo que faz parte da experiência sexual feminina;
na primeira vez é normal doer;
depois de algumas relações o corpo vai se acostumar;
se conseguem suportar, então não existe realmente um problema.
Também pode existir o medo de parecer diferente.
“E se todas as outras mulheres conseguem e eu não?”
“E se ele achar que eu não gosto de sexo?”
“E se isso significa que eu não sou normal?”
Esses pensamentos podem fazer com que uma mulher esconda a dor, minimize o que sente e continue se submetendo a experiências que não são confortáveis.
E, quando isso acontece repetidamente, pode ser difícil até mesmo reconhecer que existe um problema.
O que é vaginismo?
O vaginismo está relacionado a dificuldades persistentes ou recorrentes com a penetração vaginal, que podem envolver dor, medo ou antecipação da dor e alterações na resposta da musculatura do assoalho pélvico.
Na prática, a pessoa pode sentir dor, ardência, tensão ou perceber que a penetração é muito difícil ou até impossível.
Mas é importante entender que vaginismo não significa simplesmente que “a vagina fecha”.
A experiência é mais complexa.
Quando uma pessoa espera que a penetração vá doer, por exemplo, seu corpo pode responder aumentando a tensão da musculatura pélvica. Essa tensão pode tornar a penetração mais dolorosa ou difícil, o que pode aumentar ainda mais o medo de sentir dor.
Pode se formar um ciclo:
medo da dor → tensão → tentativa de penetração → dor → mais medo → mais tensão.
E quanto mais esse ciclo se repete, mais difícil pode ser interrompê-lo.
Quais são os sintomas de vaginismo?
O vaginismo pode se manifestar de diferentes maneiras.
Alguns sinais podem incluir:
dor ou ardência durante a tentativa de penetração;
dificuldade ou impossibilidade de realizar a penetração;
sensação de que existe uma “barreira” impedindo a entrada;
tensão ou contração involuntária da musculatura pélvica;
medo ou ansiedade diante da possibilidade de penetração;
dificuldade para inserir absorvente interno, coletor menstrual ou dedo;
dificuldade ou sofrimento durante exames ginecológicos;
evitar relações sexuais por medo da dor.
Mas esses sinais não significam automaticamente que você tenha vaginismo.
Nem toda dor durante a penetração é vaginismo.
Toda dor na penetração é vaginismo?
Não.
A dor durante a relação sexual pode ter muitas causas.
Falta de lubrificação, alterações hormonais, infecções, condições ginecológicas, vulvodínia, alterações no assoalho pélvico e outras questões podem estar envolvidas.
Por isso, é importante não transformar qualquer experiência de dor em um diagnóstico de vaginismo.
Uma avaliação adequada precisa considerar a história da pessoa, as características da dor, os sintomas associados e os diferentes fatores que podem estar contribuindo para o problema.
O objetivo não é simplesmente dar um nome para a dor. É entender por que ela está acontecendo.
Por que o vaginismo acontece?
Não existe necessariamente uma única causa.
O vaginismo pode envolver uma combinação de fatores biológicos, psicológicos, relacionais e contextuais.
Uma pessoa pode desenvolver medo da penetração depois de uma experiência sexual dolorosa. Outra pode apresentar alterações no funcionamento do assoalho pélvico. Em alguns casos, uma condição ginecológica pode contribuir inicialmente para a dor e, depois, o medo da dor pode participar da manutenção do problema.
Também podem estar presentes:
ansiedade relacionada à penetração;
experiências sexuais dolorosas;
vergonha ou dificuldade de conhecer o próprio corpo;
crenças negativas sobre sexualidade;
educação sexual baseada em medo ou repressão;
experiências traumáticas;
preocupações relacionadas ao desempenho sexual;
dificuldades na relação.
Isso não significa que o vaginismo seja “coisa da sua cabeça”.
A dor é real. A resposta corporal é real. E o sofrimento também é real.
O fato de fatores psicológicos poderem participar do problema não torna a experiência menos física.
O medo da dor pode aumentar a própria dor
Quando uma experiência sexual passa a ser associada à dor, é comum que a pessoa comece a antecipar o que vai acontecer.
Antes mesmo da penetração, podem surgir pensamentos como:
“Vai doer.”
“Não vai entrar.”
“Será que hoje vai ser diferente?”
“Eu não quero sentir dor de novo.”
Esses pensamentos podem aumentar a ansiedade e a tensão corporal.
E quanto mais o corpo se prepara para se proteger daquilo que entende como uma ameaça, mais difícil pode ser relaxar a musculatura necessária para uma penetração confortável.
Assim, o corpo não está “te sabotando”.
Ele está respondendo a uma experiência que aprendeu a interpretar como dolorosa ou ameaçadora.
“Mas eu consigo ter relação, mesmo sentindo dor.”
Essa situação é mais comum do que imaginamos.
Uma mulher pode conseguir realizar a penetração e, ainda assim, sentir dor.
Pode ter aprendido a tolerá-la.
Pode ter se acostumado a esperar a dor.
Pode até ter deixado de considerar aquilo como algo que merece atenção.
Mas conseguir fazer sexo não significa que seja normal sentir dor durante o sexo.
É possível que a mulher esteja vivendo uma sexualidade aparentemente “funcional” enquanto, internamente, está lidando com sofrimento, ansiedade ou desconforto.
E é justamente aí que a normalização da dor pode ser tão prejudicial.
Quando ouvimos repetidamente que sexo pode doer, podemos deixar de perguntar:
“Por que está doendo?”
Vaginismo tem tratamento?
Sim.
E o tratamento depende das causas e das características de cada pessoa.
Ele pode envolver profissionais diferentes, como ginecologista, fisioterapeuta pélvica e psicóloga ou terapeuta sexual.
Dependendo do caso, podem ser utilizados recursos como:
educação sexual;
psicoterapia;
estratégias para redução da ansiedade e do medo da penetração;
fisioterapia do assoalho pélvico;
exercícios de percepção e controle da musculatura pélvica;
exposição gradual à penetração;
uso de dilatadores vaginais em alguns casos.
A escolha das estratégias depende da avaliação individual.
E o objetivo não deveria ser simplesmente “fazer você conseguir transar”.
O objetivo é compreender o que está causando ou mantendo a dor e construir condições para que a sexualidade possa acontecer de maneira mais segura, confortável e prazerosa.
Você não precisa considerar a dor parte do sexo
Talvez você tenha aprendido que sexo envolve dor.
Talvez tenha escutado que “na primeira vez é assim mesmo”.
Talvez tenha acreditado que precisava relaxar mais.
Talvez tenha continuado tendo relações porque tinha medo de decepcionar seu parceiro.
Ou talvez você simplesmente nunca tenha pensado que poderia ser diferente.
Mas pode.
Sentir dor durante a relação sexual não precisa fazer parte da sua vida sexual.
Você não precisa se comparar com outras mulheres.
Não precisa descobrir se é “normal o suficiente”.
Não precisa esperar que a dor fique insuportável para procurar ajuda.
E não precisa ter vergonha de falar sobre isso.
A dor sexual é uma questão de saúde sexual e merece ser investigada com cuidado, sem julgamentos e sem reduzir a experiência a “falta de relaxamento”.
Quando procurar ajuda?
Procure avaliação profissional se você sente dor durante a relação sexual de forma frequente ou recorrente, se a penetração é difícil ou impossível, se sente medo ou ansiedade intensa diante da penetração ou se percebe que a dor está interferindo na sua vida sexual.
O primeiro passo não é necessariamente descobrir se você tem vaginismo.
É poder falar sobre o que está acontecendo e entender por que está doendo.
Terapia sexual para vaginismo
A terapia sexual pode ajudar a compreender o ciclo entre pensamentos, emoções, respostas corporais e comportamentos relacionados à dor e à penetração.
O objetivo não é simplesmente fazer com que você consiga realizar a penetração.
É compreender o que está acontecendo, trabalhar o medo e a ansiedade associados à experiência, desenvolver recursos para lidar com as respostas corporais e construir, de forma gradual e respeitosa, uma relação mais segura com o próprio corpo e com a sexualidade.
Quando necessário, o acompanhamento psicológico pode acontecer em conjunto com avaliação e tratamento médico e/ou fisioterapêutico.
Você não precisa sentir dor para ter uma vida sexual.
E não existe nada de “anormal” em procurar ajuda quando o sexo dói.



Comentários